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Futuro do Marketing: ‘temos que ter o pé na pendência e a cabeça na tendência’, frisa a pesquisadora Martha Gabriel
1 de junho de 2022

Você se lembra de quando assistia ao seu programa de TV favorito, nas décadas de 1980 e 1990? Não havia botão de pausa, nem mesmo a possibilidade de pular os anúncios como fazemos no YouTube. Em vez disso, muitos assistiam as mesmas propagandas repetidas vezes, chegando até mesmo a decorar algumas passagens. Foi assim que diversos bordões caíram na boca do povo, como dizer que alguma coisa tem “1001 utilidades” — expressão que virou sucesso a partir da propaganda da Bombril.

Pode ser que você não se lembre dessa época, mas ela certamente faz parte da história do Marketing. O cenário parecia fácil para as marcas: impactar milhares de pessoas ao mesmo tempo, durante os reclames do “plim plim”. Isso tanto é fato que, até os dias de hoje, a expressão em português “Tá bom” faz parte da língua coreana, graças a um comercial de suco de laranja vinculado em 1989 no país.

No entanto, como dissemos, isso faz parte da história. Se hoje o assunto do momento são realidades virtuais como o Metaverso, qual é, afinal, o presente e o futuro do Marketing? Essa foi a questão discutida por Martha Gabriel, pesquisadora, colunista, professora e autora na nossa Jam Session, série de webinars e entrevistas com os maiores nomes do Marketing do Brasil e do mundo.

Para Martha, alguns termos importantes que definem o Marketing nos tempos de hoje são complexidade e sofisticação, especialmente se olharmos a drástica mudança no comportamento, concorrência, plataformas de mídia e o mercado como um todo dos anos 1980 para cá.

“Se formos olhar a mudança de comportamento, especialmente a mudança da direção do vetor de Marketing colocando de verdade o consumidor no centro, ele virou o direcionador da comunicação, e outra mudança muito forte foi o aumento da complexidade do ambiente de Marketing,” comenta.

Ela, que fez sua primeira especialização de Marketing nos anos 1990, conta sobre a dificuldade de personalizar a comunicação para o público, uma vez que tudo era muito massificado. “Se pensarmos antes da era digital, tínhamos meia dúzia de plataformas. (…) Antigamente era difícil nichar, então era uma comunicação e produto para todo mundo. Agora é cada vez mais específico e direcionado”.

Mesmo diante dos desafios e da complexidade, Martha parece animada com o futuro, que aponta um caminho para várias oportunidades: “Hoje isso está não só na comunicação como possibilidade, mas também na tecnologia, que está cada vez mais próxima de permitir a produção de produtos one to one, não apenas serviços. É um cenário riquíssimo que estamos inseridos, e eu vi essa transformação.”

Nesta Jam Session, Martha compartilha conhecimento e insights enquanto fala sobre o Marketing no intrincado cenário contemporâneo, abordando temas como redes sociais, Metaverso, NFTs, Blockchain, inteligência artificial, Big Data e muito mais.

Assista à entrevista no vídeo abaixo ou leia a transcrição.

Transcrição

[Cecília Cury – Rock] Boa tarde, pessoal! É um prazer estar com vocês novamente para realizar mais um webinário na série Content Experience Jam Session. As nossas Jam Sessions são parte de uma série de webinários onde entrevistamos especialistas do mercado sobre diversos temas, como Marketing, vendas, conteúdo, mídia paga e muito mais. Aqui o nosso objetivo é dar conselhos, compartilhar tendências e melhorar práticas para as empresas impulsionarem seus resultados. 

A convidada da nossa 16a edição é uma das maiores ícones multidisciplinares da América Latina nas áreas de negócios, tendências e inovação. Ela é autora dos best-sellers Você, Eu e os Robôs: como se transformar no profissional digital do futuro – finalista do prêmio Jabuti; do livro Marketing na Era Digital e do Educar a (r)evolução digital na educação, também finalista do prêmio Jabuti.

Nossa convidada também é colunista do MIT Sloan Management Brasil e MIT Technology Review Brasil. Ela é professora de Inteligência Artificial na pós-graduação da PUC-SP e faculty internacional da Crossknowledge, além de palestrante Keynote internacional premiada que já realizou mais de 90 palestras no exterior, 6 Tedx e é embaixadora no Brasil da Geek Girls Latam

Martha Gabriel, seja muito bem-vinda a nossa Jam Session! Estamos muito felizes em te ter conosco. 

[Martha Gabriel – Especialista] Obrigada, Cecília, é um prazer enorme estar aqui com vocês, estou animada para o papo que vamos ter hoje. Boa tarde a todos que estão aqui, bora lá!

[Cecília Cury – Rock] Bora lá! Também estou muito animada! Martha, vamos começar falando um pouco sobre a sua trajetória profissional. Conta um pouco para a gente sobre como foi o início da sua carreira e o que te fez mergulhar nesse mundo da inovação e do futurismo. 

[Martha Gabriel – Especialista] Que legal! Então, temos falado muito hoje de mulheres e tecnologia – e eu trabalho com tecnologia desde o início da minha carreira, e eu acho que um dos ingredientes mais importantes é a cultura familiar. O meu pai trabalhava com tecnologia, minha mãe também – nos anos 60 eles tinham uma empresa de automação comercial – e eles falavam para mim isso, que eu podia fazer tudo que eu quisesse, que eu tinha competência para qualquer coisa e eu acreditei. (risos) Fiz engenharia e acho que engenharia é uma das áreas mais incríveis porque você transforma conhecimento em ação. O engenheiro ele faz, ele resolve problemas, aplica, e depois naturalmente já na época da faculdade eu tive contato com computação e me apaixonei.

Para você ter ideia, no começo da minha carreira eu fazia sistema para cálculo de barragem. (risos) Então é muito legal! Com 11 anos eu montei um rádio com umas placas que meu pai trouxe – nada muito difícil, tá gente, tipo um lego da época. Eu lembro a hora que eu liguei que eu fiquei ‘uau, consegui montar isso’. Então o incentivo familiar é legal dentro daquilo que você mostra aptidão. A partir daí tudo que me dá vontade de fazer eu acredito que eu consiga e vou fazendo. O futurismo inclusive veio dessa inquietação. Você começa a perceber que o mundo está mudando rápido, começa a perceber que existem tendências que estão sendo mapeadas, aí você começa a ter dúvidas de como essas tendências estão sendo mapeadas…

Não sei se as pessoas que estão aqui com a gente já pararam para pensar nisso. Como as empresas de consultoria, os Think Tanks, os institutos de estudo de futuros, como eles chegam nessas tendências? Tem método. Tudo que eu tenho dúvida eu vou estudar, até para ter neném eu fui estudar. (risos) O que eu não sei, eu vou logo aprender.

[Cecília Cury – Rock] Que massa, então desde pequena você teve incentivo da sua família, dos seus pais, para correr atrás dos seus sonhos e a tecnologia parece estar sempre bem presente nos seus interesses e objetivos. E como você disse, já atua com tecnologia há bastante tempo, e também se aventurou no mundo do Marketing e tem isso hoje como tema principal. Na sua opinião, quais foram as principais mudanças de comportamento dos consumidores que você observa desde o início da sua carreira até hoje?

[Martha Gabriel – Especialista] Talvez a principal seja a mudança, a inversão do vetor de marketing. Se a gente for pensar antes das mídias interativas, eu nasci na era da televisão, rádio… Existia uma direção de comunicação e muito pouca concorrência na comunicação e no impacto das pessoas. Se pensarmos a partir das primeiras mídias interativas – e agora estamos com praticamente todas as mídias interativas – você passa a ter as pessoas como os donos da direção da comunicação.

Eu brinco há muitos anos que se você quiser encontrar o seu público, a melhor forma é ser encontrado por ele. Antes era só colocar uma mensagem que todo mundo via. Eu lembro quando eu era criança que qualquer coisa que passava no intervalo de TV, nas propagandas que eram poucas, todo mundo sabia e decorava. Era muito fácil para as marcas.

Começamos a ter concorrência, em 1990, 90 e pouco já tínhamos muitos produtos no Brasil, o país passou por uma abertura inclusive de mercado e começamos a ter muita concorrência de produtos e muita mídia. Se formos olhar a mudança de comportamento, especialmente a mudança da direção do vetor de Marketing colocando de verdade o consumidor no centro, ele virou o direcionador da comunicação, e outra mudança muito forte foi o aumento da complexidade do ambiente de Marketing. 

Se pensarmos antes da era digital, tínhamos meia dúzia de plataformas. E tinha um especialista em cada tipo de plataforma como revista, jornal, TV, rádio, etc. Era meia dúzia. Agora não dá nem para contar a quantidade, segmentação, a parte de nichar – antigamente era difícil nichar, então era uma comunicação e produto para todo mundo, agora é cada vez mais específico e direcionado. Tanto que quando eu fiz pós em Marketing lá nos anos 90, o sonho de qualquer pessoa na área de Marketing era poder fazer o um a um (one to one), e hoje isso está não só na comunicação como possibilidade, mas a tecnologia está cada vez mais próxima de permitir a produção de produtos one to one, não apenas serviços. 

É um cenário riquíssimo que estamos inseridos, e eu vi essa transformação. O que para vocês é história, para mim é memória, passei por tudo isso (risos). Mas se por um lado é riquíssimo, por outro lado é extremamente desafiador e complexo. 

Tem uma coisa que eu gosto de lembrar as pessoas é que desde o início da história da humanidade a complexidade vem aumentando. Começamos a nos conectar com mais coisas, tem mais gente no mundo, tem mais tecnologia e isso não para de aumentar. E quanto mais complexo o mundo fica… por exemplo quando passamos a ler, o mundo fica mais difícil, você tem mais oportunidades. A cada grau de complexidade que temos, precisamos nos sofisticar. 

Eu lembro no começo quando começamos a ter Marketing Digital e as pessoas reclamavam ‘eu tenho que entender de redes sociais?’ Tem! Eu uso a analogia de que se você é a pessoa que só dirige o carro, ok, só precisa usar a interface. Se você é a pessoa que cria o carro, tem que entender tudo que compõe esse carro. 

O profissional de Marketing é o criador das estratégias, então tem que entender sim. Ou seja, ficou mais complexo, você tem que se sofisticar. E os mais sofisticados são os que obtêm melhores resultados. 

[Cecília Cury – Rock] Sensacional. Concordo com tudo que você falou e pegando esse gancho de utilizar diversas plataformas, você mencionou as redes sociais como sendo um novo cenário mais desafiador para a tecnologia hoje em dia. Com isso podemos dizer que o crescimento das redes sociais está mudando a forma como as marcas acabam se relacionando com os consumidores delas, e nesse contexto, o social commerce é um termo que tem ganhado cada vez mais espaço. Você acha que pode detalhar um pouco mais sobre esse assunto?

[Martha Gabriel – Especialista] Lógico, posso sim. Social commerce – eu gosto muito de pensar quando as coisas mudam o que realmente mudou e o que só evoluiu. O social commerce já existe há bastante tempo, desde lá atrás quando Avon e Mary Kay começaram a usar pessoas para vender seus produtos. Se você pensar em uma revendedora Avon ou Mary Kay, ela usa sua rede de amigos para poder vender os produtos. Sempre foi aquela capilaridade social – são amigos que trazem as coisas. Quando a gente começa a ter as mídias digitais e as redes sociais, isso começou a acontecer de forma bem natural, mas agora a grande transformação que a gente tem é que as plataformas de redes sociais estão trazendo funcionalidades que favorecem isso. 

Quando falamos de live commerce – que foi uma coisa que pegou mais forte durante a pandemia devido ao distanciamento – as plataformas que permitem isso são mais que plataformas de redes sociais. Elas trazem funcionalidades que favorecem aquele tipo de interação. Estamos vendo também junto com as mídias sociais a ascensão de tudo que é social – o social commerce, o social qualquer coisa. O cérebro humano foi configurado para adorar o social porque o grupo nos faz mais fortes. Ao longo da história da evolução da humanidade, quando um indivíduo se juntava com outras pessoas, ele adquiria força. Então somos configurados biologicamente para ficarmos felizes quando estamos em grupo. Quando a gente transfere isso para a tecnologia e ela favorece isso, passamos a gostar. E hoje as plataformas estão favorecendo isso em todos os graus.

Inclusive se você for olhar para as plataformas que não são para live commerce, mas que eram só para ter seguidores ou influenciadores, elas estão todas monetizando, trazendo novas formas para o usuário vender, favorecer a venda e ser recompensado por isso. 

O interessante neste processo é que conforme a gente entra com as mídias digitais, de forma geral, damos poder para as pessoas. O mundo é pendular: assim essas mídias começam a ganhar relevância com pessoas que viram influenciadores – mega influenciadores. Então novamente criamos estrutura para que os pequenos tenham voz outra vez, e eles acabam complementando todo esse cenário. E temos uma coisa muito mais forte no final. 

Como eu disse no início, minha primeira formação é engenharia. O concreto forte e bom tem pedra grande, pedregulho, areia, água, cimento, ele tem de tudo. Um Marketing, uma comunicação  ou uma sociedade que seja forte, tem macro influenciadores, os médios, os mini, os micro, tem as plataformas que fazem essa cola – então é a mesma coisa. Neste contexto que estamos vendo agora, as mídias sociais estão ganhando cada vez mais recursos e funcionalidades para que possamos ser muito mais bem sucedidos e facilitar o processo de fazer social commerce.

Inclusive, vimos iniciativas no passado de compras coletivas, em grupo, vimos iniciativas que ficaram até bastante fortes, aí isso sumiu por um tempinho porque vieram as mídias sociais trazendo funcionalidades, e agora vemos de novo novas estruturas de compra coletiva para as pessoas juntas criarem algum tipo de força para comprarem mais barato, ou para poder desenvolver produto.

Veja como está tudo ligado: open innovation, social commerce, as pessoas trocando ideias, se ajudando. Hoje vemos isso de uma forma muito forte. 

Não vou avançar no assunto, você vai dar continuidade nas perguntas, mas acho que é legal lembrar as pessoas que fomos configurados para ser social. Qualquer coisa que você coloque que favoreça o social, está favorecendo para que a coisa flua. 

Tem uma outra tendência junto com a parte social de forma geral que é a comunidade. E comunidade é um pouquinho diferente de você ter um grupo social, porque comunidade é quando temos um grupo no Facebook ou no Linkedin, por exemplo, e não precisa nem gostar da outra pessoa. São pessoas que estão conectadas por algum tipo de interesse comum. Quando a gente descobre pessoas que têm os mesmos interesses, anseios, necessidades, perigos, as mesmas coisas para prestar atenção; acabamos nos juntando e criando várias estratégias em comum que favorecem a todos. 

Temos visto também o surgimento de comunidades. No Marketing Digital, por exemplo, criamos uma comunidade: são pessoas focadas em entender Marketing, crescer com o Marketing, entender as tecnologias e vemos que isso é bem bacana porque realmente temos uma forma do “em comum” que alavanca os objetivos de todos. Temos bastante coisa bacana acontecendo com as novas plataformas de tecnologia. 

[Cecília Cury – Rock] Tem muita! Você estava falando sobre essa noção de comunidade e eu estava pensando como é interessante que as dores de uma determinada parte do seu público alvo pode ter força para direcionar toda a estratégia de um produto e modificar toda uma ideia inicial. Às vezes a gente estava pensando em resolver uma dor que era a dor de um indivíduo, mas que na força do social, da comunidade, se torna um novo direcionamento da empresa.

Vamos falar agora sobre um tema que embora não seja novo, se popularizou de forma assustadora depois de Mark Zuckerberg anunciar a mudança do nome Facebook para Meta. Estou falando do famoso metaverso.

Martha, de que forma você entende que essa inovação contribui com as empresas, e como você acha que os profissionais de Marketing podem se preparar para essas mudanças?

[Martha Gabriel – Especialista] Essa pergunta é fundamental porque eu preciso colocar vários pingos nos i’s. Até meu capítulo no livro de Tendências é sobre metaverso, tenho escrito para o MIT para a gente falar sobre isso, mesmo porque estou aqui desde que o metaverso começou a se configurar. 

Primeiro, o metaverso é muito mais que a rede do Mark Zuckerberg ou qualquer grupo que queira fazer um ambiente no 3D. Recentemente vimos na mídia inclusive, pessoas falando de metaverso como se fosse sinônimo de ambiente virtual 3D, e não é. Na realidade, vamos voltar um pouquinho no tempo. O termo metaverso vem de 1992 do livro Snow Crash de Neal Stephenson, e o que ele representa? Essa fusão do mundo on e off

Se formos pensar desde o início da era digital, começamos a ter um mundo que vai além do mundo físico. Meta é ir além. Quando começamos com o e-mail, começamos a ter experiências além do que temos no físico e no tangível. Antes do digital, todos nós estávamos presos e limitados pelo físico que estava ao nosso redor.

A partir disso, cada camada de digital que a gente vai acrescentando, vai trazendo uma dimensão adicional para criarmos experiências que se fundem com o mundo offline

Se formos ver, em 1992 temos o metaverso, o termo cunhado no Snow Crash. Em 1999 temos Matrix, que para mim é a melhor representação do metaverso, porque você vai e volta do mundo físico e digital. 

De lá para cá já tinha e-mail que é um metaverso bidirecional, uma dimensão, depois começamos a ter as telas, os sites, duas dimensões. Quando fazemos uma live como essa, estamos no metaverso. 

Depois começamos a ter jogos com ambientes virtuais 3D, como tivemos no começo do século Ragnarok, depois Second Life que foi um marco importantíssimo como um ambiente que era o mais próximo de um mundo virtual do que um 3D. Se pegarmos o Horizon Worlds atualmente, ele é basicamente o que era o Second Life lá atrás, onde se podia voar, se teletransportar, mudar a gravidade, etc. A gente só não fazia isso com óculos virtuais porque não tinha a tecnologia na época. E agora, porque o Second Life não vingou? Ele teve um boom e depois uma diminuída, mas porque agora estamos falando disso?

Se olharmos lá atrás, o Second Life era fechado nele mesmo, não tinha como integrar as experiências do jogo com o restante da nossa vida. Se pegarmos os anos 2007, 2008 – que é quando surgiu o Second Life – e analisarmos a tecnologia que foi surgindo para criar a infraestrutura para chegarmos nos dias de hoje, agora sim podemos integrar as experiências. Especialmente depois do ano passado e retrasado por causa da pandemia que causou uma digitalização fortíssima no mundo – a gente teve o blockchain, que é importantíssimo para isso. 

Blockchain conecta e permite transações tanto com NFTs quanto com tokens fungíveis, que é o caso das criptomoedas, ele permite uma economia entre os vários mundos 3D e o mundo físico aqui. Se eu não pudesse comprar alguma coisa lá e experimentar aqui, eu ficaria presa numa realidade virtual. 

A grande sacada que fez com que a gente começasse a se preocupar tanto com o metaverso – que não é uma coisa nova e não é sinônimo de mundo 3D – é justamente a possibilidade que estamos tendo agora de fazer essa fluição entre Fortnite e outros mundos, comprar uma coisa daqui para lá, por exemplo. Quanto mais interoperabilidade, quanto mais dados a gente tiver, mais conseguir usar as mesmas coisas em todos os lugares, mais a gente está fluindo naturalmente nesse metaverso que estamos construindo. 

Um exemplo que dou disso é que você não lembra onde leu ou viu alguma coisa: pode ter sido numa live, ou você leu num texto, ou viu no impresso do mundo físico, e cada vez mais essa confusão vai se tornar natural. 

Só voltando dois passos, metaverso não é um mundo específico, é o mundo todo igual universo. Ninguém fala que vai entrar no universo, já estamos. Não vou construir o metaverso. Quando você constrói sua casa, seu escritório, você constrói uma parte do universo. Quando alguém constrói o mundo 3D que é onde você vai ter sua loja ou suas experiências, isso não é O metaverso, é parte DO metaverso. 

Podemos até chamar de “seu metaverso”, como falamos na expressão “meu universo”. Mas não é O metaverso, precisamos entender ele como amplo. Às vezes eu vejo as perguntas que as pessoas fazem “como eu entro no metaverso?” Bom, você já está. “Quanto custa estar no metaverso?” Você já está! Pode custar zero ou custar muito dependendo de qual ambiente você deseja frequentar.

Igual no mundo. O que você precisa para estar vivo? Respirar. Quanto custa viver? Depende de como você quer viver, pode custar pouco ou muito. 

Quando falamos das oportunidades, aí sim é legal, isso é uma das coisas novas. Uma das coisas que gosto de lembrar é que metaverso não é revolução, é evolução, estamos evoluindo. Mas uma das coisas que temos novas hoje é uma presença muito maior dos ambientes 3D que são possíveis de serem navegados, e mesmo quem não tem óculos virtuais pode participar. E isso muda a dinâmica de possibilidades que temos no Marketing. 

Focando bem especificamente no Marketing de negócios, a partir da hora que se tem mundos virtuais 3D onde conseguimos fluir, ir para lá e voltar, e fazer compras de um para o outro, você tem muitos mais mercados e opções para criar produtos.

Outra coisa, nesses mundos, não precisamos seguir as regras da natureza daqui – nem da gravidade, nem do corpo. Eu lembro que no Second Life, quinze anos atrás, você podia comprar o corpo de uma modelo para usar ou o corpo de uma águia. Tinha um designer que fazia os corpos e você não precisava ficar preso neste corpo físico. 

No mundo físico estamos presos, mas lá eu posso ser “o que eu nasci para ser”, ter a essência do que eu nasci para ser. Imagina a quantidade de oportunidades! Outra coisa, aqui fora eu sou uma coisa só, posso mudar de roupa, de estilo dependendo de onde eu for, mas lá posso mudar de verdade o que eu sou, experimentar outras formas de ser. 

A quantidade de produtos, de personalizações, de fluição entre o on e o off, criação de produtos que são possíveis… Imagina que legal, você compra uma coisa aqui e essa coisa automaticamente tem uma tag que entra no seu avatar se você quiser. Você pode replicar os seus bens daqui lá ou comprar lá e receber aqui… Essa fusão é o metaverso e as possibilidades de negócios e personalização são incríveis. 

E quando a gente fala de Marketing, além dos produtos tem toda a parte de comunicação que permite que se comunique de várias maneiras diferentes nesses ambientes todos. Temos um monte de oportunidades aqui e um monte de complexidade. Precisamos ser mais sofisticados, entender, navegar – e vou dar uma dica!

Quem quiser realmente entender o que está acontecendo com os mundos 3D, essa fluição, é preciso experimentar, não adianta ficar só na teoria. É até interessante que lá atrás quando eu usava o Second Life, – e usei muito, fiz trabalho de arte, escrevi paper sobre isso, – na época eu via o avatar e navegava com setinhas ou com o mouse. Agora podemos usar óculos virtuais e ter uma experiência muito mais imersiva. Mudou também a relação com o ambiente onde estamos e é preciso entender quais são essas possibilidades. 

Como no workroom que estamos personalizando a sala para ver o que podemos fazer: qual é a janela que colocamos no lado de fora, quem está entrando. Você tem uma outra forma de enxergar e outras formas de se comunicar para que você faça parte daquele ambiente e seja adequado para ele. 

As oportunidades são estas: tem que dominar isso, porque esse é o próximo grau de evolução desses ambientes e vamos ter cada vez mais pessoas entrando nesse tipo de experiência – precisamos estar junto com elas. 

[Cecília Cury – Rock] E esse assunto é tão rico! Eu tenho que confessar que esse é um dos assuntos que eu mais me interessei no seu livro, que mais me deixa curiosa para saber como vai acontecer no futuro.

Agora vamos falar sobre um outro tema que também é muito presente nas suas palestras e nos seus livros, que é a inteligência artificial (IA). Embora muitas pessoas não percebam, a IA já está no nosso dia a dia, como você falou no próprio metaverso, e queria saber para você quais são os principais impactos da tecnologia, da inteligência artificial para os comportamentos das marcas e seus consumidores.

[Martha Gabriel – Especialista] Ótimo. A primeira coisa é que IA é na verdade um termo genérico, tem muita ramificação, e o que mais usamos é machine learning, mas já usamos IA quando fazemos uma busca, por exemplo.

Todo profissional de Marketing que faz Marketing de busca já está usando alguma coisa para se alinhar com a IA. Agora de dois, três anos para cá, temos tido muito mais soluções utilizando machine learning, e os principais benefícios e utilizações no Marketing são:

A primeira ou a número um para mim, a mais importante é conhecer o consumidor. Temos conseguido hoje por meio do sistema de machine learning e existem várias clouds inteligentes que permitem analisar sentimento, personalidade, fazer predição do que as pessoas querem baseado no comportamento… então a IA aprende com dados e quanto mais dados temos disponíveis – e não só das pessoas individuais, mas de comportamentos para analisar padrões, – mais conseguimos antecipar ações que podemos fazer.

Conhecendo o consumidor, nosso cliente, temos uma segunda coisa que a IA pode ajudar que é a criação de produtos para esse cliente. Eu posso fazer isso em função desse conhecimento mais detalhado, e veja como isso tudo é alinhado com dados – vamos falar daqui a pouco de data driven – mas se não tiver dados não conseguimos fazer com que os sistemas aprendam. E na hora que os sistemas aprendem eles te ajudam a fazer várias coisas que auxiliam a atender o consumidor. 

Lembrando que Marketing sempre é sobre atender o público. Seja consumidor ou não, é o seu cliente no final. Podemos criar conteúdo – uma das formas que os sistemas de IA têm sido mais utilizados é para auxiliar na criação de conteúdo adequado para os diversos públicos. 

Inclusive já existem influenciadores que são 100% digitais. Eles têm um engajamento incrível porque eles conseguem analisar dados com muito mais velocidade que a gente, humanos que vamos fazer essa análise de influência. 

Outra área onde é bastante utilizada a IA no Marketing é a área de pagamento. Quando fazemos um reconhecimento facial, – e depois podemos falar da parte de privacidade,- mas assumindo que você esteja permitindo o reconhecimento facial para fazer um check-out, isso tira um monte de atrito do processo de compra e facilita bastante. Países que têm menos restrições em relação a isso, como a China, já fazem o reconhecimento facial para check-out de maneira muito fácil. 

Outra coisa, se temos sistemas inteligentes e dados em todos os lugares, devemos entrar num processo nos próximos anos em que muito mais máquinas vão comprar coisas do que humanos. Por exemplo, a minha geladeira pode pedir diretamente para o mercado o que está faltando ao invés de eu ter que fazer essa demanda. Posso fazer também, mas as coisas que são aprendidas na rotina do consumidor, isso pode ser demandado de máquina para máquina. 

Perceba que quase tudo que utilizamos hoje já tem IA por trás em algum grau, mas isso deve ficar cada vez mais forte e ser utilizado cada vez mais pelos profissionais de Marketing. 

Um exemplo que eu dou: em 2017 eu estive em uma imersão em Israel com o pessoal do Digitalks e visitamos várias empresas de start-ups. Uma delas fazia já naquela época uso de machine learning para fazer bidding automático de anúncios nas plataformas de redes sociais. Eu perguntei para o cara qual era a performance e ele disse que era muito melhor do que qualquer ser humano. Inclusive as empresas que começaram a utilizar, contrataram mais humanos para fazer a gestão dos criativos e outras atividades. 

Uma coisa interessante que ele me falou é que um humano, por mais que queira ser objetivo na hora de fazer os bids – e vamos combinar que isso é trabalho para máquina né, ter que ficar vendo qual a variação de valor, é muito dado – mas mesmo que se queira ser super objetivo, somos enviesados. Tem plataforma que a gente gosta mais e pensamos “como não vou colocar uma ação nessa plataforma, ela é importante”, mesmo que os dados estejam mostrando que você não devia fazer aquilo. Veja quantas besteiras a gente faz por querer fazer algo que o coração mandou. Basicamente quem utiliza disso há vários anos, tem um resultado muito melhor em relação às ações de mídia paga do que quem está fazendo na unha ainda, com humanos olhando. 

Esses são alguns exemplos, mas temos N outros. Há uns 4 anos, a IBM lançou um processador neuromórfico que consegue olhar a face das pessoas e analisar as expressões. 

Não sei se alguém já assistiu Lie to Me, que é uma série na Netflix baseada em fatos científicos. Todas as pessoas tem 7 microexpressões e se você conseguir enxergar, elas te informam se a pessoa está surpresa, com medo, ou seja, tem algumas características. Isso faz com que você saiba se essa pessoa está mentindo. 

Por exemplo, se alguém fala algo para uma pessoa e ela não fica surpresa, mas deveria ficar, ela está mentindo. Nós humanos não conseguimos enxergar essas microexpressões de maneira clara, mas esse sistema enxerga de todos nós. 

Vamos pegar uma outra dimensão, que é fazer atendimento ao consumidor. Os chatbots são uma forma de machine learning. Agora temos robôs como o Pepper, ou o Tinbot, que é brasileiro, para poder fazer essas interações. Eles são muito mais eficientes quando a pessoa chega num hotel ou qualquer tipo de relacionamento que precise de dados exatos como  “a que horas é o café da manhã” ou “que horas é tal coisa”. Existem outros casos em que se pode utilizar esses sistemas para fazer gestão de equipe, pois ele conhece melhor como a equipe se comporta.

Para conhecer o consumidor, para fazer essa análise de dados, lá atrás também já começaram a ser utilizados em alguns países manequins que tinham câmeras nos olhos e todos os dados capturados poderiam ser analisados. Imagina que você colocou um mix de produtos nesse manequim, uma roupa x. Quem pára para ver essa roupa? Mulheres, homens? Jovens, pessoas com mais idade? Qual o perfil que ela atrai? Só no visual é possível fazer uma triagem e entender quem se interessa mais por aquele produto para melhorar o desenvolvimento dele. Um dos capítulos que tem no livro também é a parte de neuromarketing e se você entender como as pessoas estão reagindo a determinados tipos de comunicação, determinados tipos de mix que você propõe, é possível ser muito mais assertivo na hora de ajustar essas ações e pode ajustar até em tempo real quando esses dados estiverem disponíveis. 

Tem um leque grande de coisas que podem ser feitas com essas tecnologias. 

[Cecília Cury – Rock] Sensacional! Que aula! Martha, queria falar um pouco sobre as criptomoedas e os tokens como NFTs que estão entre os assuntos mais discutidos atualmente e que por muitos são considerados como a nova tendência para o futuro do Marketing. Queria saber como você acredita que essas novas tecnologias podem influenciar as estratégias das marcas e gerar oportunidade também?

[Martha Gabriel – Especialista] Ótimo. Vamos começar falando das diferenças dos tokens para quem está entrando agora e ouviu falar de NFT mas não sabe direito o que é, e daí a  gente vê a ligação que NFT tem com as criptos, inclusive.

Quando falamos de blockchain, temos os tokens que são registrados nessa blockchain. Pensa no token como sendo um recipiente, uma caixinha onde você coloca algo dentro da blockchain. Tem dois tipos de coisas que podemos colocar dentro dessa caixinha, uma delas são informações – nominadas tokens fungíveis, e tem os que são não fungíveis. Os fungíveis são onde duas coisas diferentes podem ser trocadas e têm o mesmo valor. Costumamos brincar que é tipo dinheiro, uma nota de um real pode ser trocada por outra de um real, não importa a qualidade de cada nota, vale a mesma coisa.

Quando falamos das moedas digitais, as criptos que estão dentro do blockchain, posso ter um bitcoin e trocar por outro, não importa a procedência, eles são fungíveis. Então uma das coisas que fluem e que são muito importantes quando a gente fala da economia digital, e de próxima era, é ter o fungível para poder fazer compra, poder fazer toda aquela coisa do metaverso de fluir entre o on e o off

Hoje temos várias criptomoedas que são fungíveis e que podemos utilizar na hora de fazer qualquer tipo de transação dentro desse mundo virtual, digital de forma geral, e agora também no mundo físico. Veja como o metaverso é isso. Já posso comprar uma coisa no mundo físico usando os tokens fungíveis, as criptos que tenho no digital. 

Por outro lado, tem outro tipo de token que registra bens que não podem ser trocados – e isso é incrível, pois até recentemente não existia isso no mundo digital. Se tivesse um trabalho de arte digital, como eu tive, precisava vender no mundo físico. Um trabalho de arte não é igual ao outro, no mundo físico também não, um quadro, um imóvel, não valem o mesmo que outro. Esses bens que são não fungíveis, não consigo trocar um pelo outro, e se eu não consigo registrar, não consigo comercializar.

Por isso que existia tanta pirataria de memes, não se conhecia o criador, quem fez, quem registrou, de quem é aquele trabalho de arte. Assim vieram as NFTs que chegaram depois das criptomoedas, mas também já existem há alguns anos. Elas ficaram mais em voga a partir do ano passado por causa de uma venda gigante que ocorreu em uma leiloeira que é tradicional e vendeu uma arte digital por quase 70 milhões de dólares em NFT, aí popularizou o conceito.

Mas o legal do NFT é que ele é importante. Para ter economia, a gente precisa ter bens e ter formas de transacionar esses bens. Quando falamos de NFT, eles aumentam a quantidade de bens que a gente pode transacionar e não só os digitais. 

Até recentemente, como você registrava uma experiência única, como fez a pessoa que ouviu o som da Terra naquele determinado momento? Hoje você pode fazer isso com NFTs, você registra qualquer coisa que seja única, no mundo on ou off, quer seja tangível ou intangível. E você pode comercializar. Podemos inclusive pegar um apartamento e vender como NFT fragmentado, como se fosse parcelado. 

Com isso temos o dinheiro, que é a cripto que permite a fluição entre os mundos – qualquer mundo digital que tenha comércio ou transações usa alguma espécie de criptomoeda. Inclusive podem existir criptos exclusivas daquele mundo virtual que podemos converter para as tradicionais como Bitcoin, Ethereum, etc. E os bens todos podem ser registrados em NFT.

Além dos NFTs serem importantes para criarem novos produtos, eles também permitem a economia digital no sentido de que eu posso vender uma skin num determinado mundo virtual e ela fica registrada e reconhecida nos outros lugares que eu vou com ela. Podemos tirar a pirataria. Isso para o Marketing é muito importante – saber a origem dos arquivos.

O blockchain já está sendo muito utilizado na parte de agro e em várias áreas para rastrear a origem, porque conseguimos ter essa informação dentro desses tokens. Se eu consigo ter isso, eu consigo saber se aquele produto, ou aquela skin que eu estou usando, é realmente uma coisa legítima ou falsa. Começamos a ter esses dois tipos de tokens que alimentam a economia digital. 

Quanto mais gente utilizar e entender, tiver carteira…. Isso é uma grande oportunidade para os profissionais de Marketing, mas não é mainstream. Ainda tem muita coisa que entra, que é preciso aprender a utilizar e estar preparado, porque quando as pessoas vierem você já vai estar pronto para aquilo.

As pessoas tem que aprender a lidar com cripto, tem que ter as carteiras, não é uma coisa tão fácil. Agora estão aparecendo no Brasil as operadoras que transformam de forma mais fácil o real para cripto e cripto para real, mas isso era mais difícil, e está facilitando agora. 

É preciso entender como funcionam esses bens digitais dentro da sua carteira, como que se registra, o que você recebeu, e é preciso aumentar muito o nível de cibersegurança, pois se você não conhece, pode ser roubado. 

Eu vi hoje um especialista de cripto comentar que a carteira MetaMask está sofrendo alguns tipos de ataque no sistema IOS. De novo, onde o dinheiro vai a gente segue com os negócios, mas também vão os criminosos, todos seguem a mesma trilha.

A dica que eu dou é: quem puder entenda um pouco disso. Você não precisa comprar um bitcoin inteiro. Compre um pouquinho de Ethereum, um pouquinho de qualquer moeda que seja necessária, faça um registro de NFT, faça alguma coisa em algum desses mundos, crie seu avatar, vai se educando nisso. E as ideias começam a surgir. 

Em 2016 quando surgiu Pokemon Go eu perguntava pras pessoas se elas estavam usando e me respondiam que era bobagem, coisa de criança, mas como assim? Para entender a realidade mista Pokemon Go é excelente. Eu tenho clientes que jogaram um pouquinho de Pokemon Go e tiveram ideias brilhantes para fazer algum tipo de ação de gamificação em realidade mista para os negócios deles. A mesma coisa com as criptomoedas. Experimenta que você vai ver quantas possibilidades vão surgir. 

[Cecília Cury – Rock] Sensacional! Eu tinha ainda mais curiosidade de saber sobre as criptos e as NFTs porque como você falou foi um assunto que surgiu com muita força no passado e é muito curioso pensar nas possibilidades do mundo digital no mundo físico. 

Mas antes da gente continuar, queria pedir para quem nos acompanha encaminhar suas perguntas no chat e no final separamos um tempo para isso. 

Retomando com uma questão que está cada vez mais incorporada no dia a dia das pessoas, queria falar sobre o comando de voz. Hoje encontramos essa opção no celular, TV, computador, e também com os assistentes de voz como a Alexa, da Amazon, a Siri, da Apple, o Google Assistant. Martha, o que você acha que tem influenciado esse crescimento e quais são os pontos sobre esse assunto que nós profissionais de Marketing  precisamos ter atenção? 

[Martha Gabriel – Especialista] Primeiro, o que tem influenciado isso? Voz é a forma mais natural de comunicação. Uma criança antes de ler, já fala. Eu li um caso ontem de uma pessoa que tem deficiência mental e ela consegue se comunicar com a Alexa, consegue conversar com a Alexa, ela traz informações, etc. A voz é a última fronteira para humanizar o processo das marcas. 

O que isso traz para os profissionais de Marketing? Primeiro novos produtos, gestão de conteúdo de voz. Meu mestrado foi em interface de voz na web em 2004, e programar coisas para voz é diferente, como o conteúdo que a Alexa vai falar ou a Siri vai falar, ou ainda conteúdos que são interativos, como por exemplo um chatbot – que pode incluir a parte de voz, não precisa ser só escrito.

A segunda coisa é a otimização da busca por voz. Se eu perguntar para a Alexa, qual é o restaurante japonês mais próximo da minha casa, tem toda uma otimização para ela escolher o primeiro em ordem de relevância. De novo, é pensar como aplicar as estratégias de marca para os cenários de voz. Se as pessoas vão cada vez mais fazer busca por voz, eu tenho que fazer estratégias de Marketing de busca por voz; se elas começarem a usar voz nas mídias sociais, em conteúdos, eu tenho que me programar para estar presente nesses diálogos. 

Se as pessoas começam a demandar cada vez mais interação por voz, você tem que ter uma interface por voz para elas e ser fácil de acessar.

De maneira geral, as pessoas não sabem que podemos programar inclusive para a Alexa fazer integração com os sistemas das nossas empresas, das nossas plataformas. Para fazer compras, há muito tempo, você pode fazer pedidos para a Alexa – para onde já existe integração de compra – para ela fazer uma lista de compras por voz e mandar comprar. É um novo caminho, uma nova interface que devemos dominar. 

Quanto mais as pessoas quiserem fazer diálogo de voz, mais devemos estar preparados para isso. Basicamente é isso, precisamos ter todo um preparo do Marketing para usar a voz como comunicação, como interação para os produtos que colocamos, Marketing de busca, ou seja, temos que nos preparar para isso. 

[Cecília Cury – Rock]  Legal, Martha! Bom pessoal, queria dizer que todas as perguntas que eu fiz aqui foram inspiradas em informações que estão presentes no livro escrito por ela, juntamente com outros grandes especialistas do mercado, que é o Trends: Marketing na Era Digital. Eu queria te pedir Martha para contar um pouco para a gente sobre o processo de desenvolvimento do livro e o que os profissionais de Marketing podem esperar desse super lançamento.

[Martha Gabriel – Especialista] Que legal, querida! Trends na verdade foi organizado junto com o Rafael Kiso e o Luciano Kalil, que são meus parceiros no Marketing Digital, e no final do ano passado pensamos em trazer algo diferente. 

Ele se baseia do Hype Cycle do Gartner, quem leu o Marketing na Era Digital, o livro de conceitos e plataformas, sabe que o Hype Cycle mostra todas as tecnologias que estão em ascendência e tem grande probabilidade de impactar a gente, e com isso resolvemos mapear e trazer um capítulo específico para elas.

Temos vários mundos que tratamos lá como neuro, games, voz, o metaverso, o beyond world que foi o que eu tratei, o social que foi o que o Kiso falou, comunidades, e com isso convidamos especialistas para trazer a visão e o recorte deles sobre esses assuntos.

Porque nesse mundo que é super complexo e múltiplo, é muito legal construir junto com a visão de todos. Eu não quero falar o nome de todos para não ser injusta e esquecer alguém, mas todos são incríveis. Temos o Marcelo Trevisani, Pedro Camargo, Pedro Sobral, Kiso, Kalil, eu, a Mayara Souza que fala de cripto e blockchain, tem também o Renato Grau que fala sobre a parte de LGPD que é uma das coisas que entram também na vida da gente, o Nei Grando que fala de data driven, tem um capítulo que fala de ESG… Pegamos outras pessoas para complementar a visão que temos. Não é um livro básico, é um livro que já vai direto no ponto para cada capítulo e você pode ler na ordem que quiser. Pode ver qual a tendência que você está interessado em aprender um pouquinho melhor, vai no índice, e pronto. Só está disponível para Kindle, podemos deixar o link para quem quiser. 

[Cecília Cury – Rock] Livro digital! Compartilha com a gente o link que vou deixar no chat para a galera, esse livro tem profissionais estratégicos e referência no Brasil, recomendo demais.

Para encerrar, temos uns minutinhos para abrir para as perguntas do público e vou começar com a pergunta da Vanessa: Martha, como você vê as possibilidades e oportunidades para os profissionais de Marketing ajudarem os seus clientes no metaverso?

[Martha Gabriel – Especialista] Primeiro tem que entender o que falei desde o começo: metaverso é isso aqui. Se você entender o que seu cliente precisa – e tudo que falamos aqui não vale de nada se não entendermos quais são os problemas dos outros. Eu brinco que inovação é paixão por problemas. Se você não é apaixonado por problemas, você não resolve nada para ninguém. No metaverso, não adianta a gente ficar se encantando com os novos mundos 3D se isso não é ainda a realidade dos clientes, onde os públicos deles estão. 

Quando falamos hoje dos mundos virtuais em 3D que estão se ampliando no metaverso, temos muitos ambientes de games – essa é a maior parte dos ambientes – e estamos começando a ter ambientes privados e específicos de empresas, como a Century tem um andar inteiro para encontro de profissionais do mundo inteiro, a mesma coisa acontece com a Basf que criou uma fazenda que é na realidade um ambiente 3D onde as pessoas que trabalham com agro podem encontrar soluções lá e se encontrarem, e esses ambientes são proprietários. Temos workrooms do Facebook ou Meta que é do Horizon que é a plataforma de metaverso do Facebook – se alguém quiser experimentar eu aconselho que comecem utilizando os workrooms, porque é muito a nossa cara. Em vez de fazer uma live só com vídeo, você consegue usar seu computador lá, tem muito daquela integração que eu falei de on e off, está em beta ainda mas é legal, e deve vir para o Brasil em breve o Horizon Worlds que é equivalente ao Second Life do Facebook

Você já pode começar com o workroom para o seu cliente, a menos que ele seja da área de games ou de público para gerações mais jovens que já estão usando isso – porque a geração mais jovem já usa isso direto. Temos a Gucci vendendo bolsa no Roblox e faz todo o sentido. Os skins têm todo o sentido. Mas se formos pensar em empresas mais tradicionais, de produtos mais tradicionais, não queira fazer biotecnia de entrar no mundo virtual se isso não é a necessidade do cliente. 

Eu lembro quando começaram os websites e tinha cliente meu que queria fazer, eu perguntava “para o que” e a pessoa dizia “porque o concorrente fez” ou “para estar lá”. Estar lá para que? Para quem? Para resolver o problema de quem? Sempre faça perguntas básicas, volte um passo para trás se você achar alguma coisa incrível para fazer no mundo 3D. Como a gente fez o lançamento do livro que foi um papo com os influenciadores, foram umas 15 pessoas de peso e foi incrível, e esse era nosso objetivo. Agora se eu quiser fazer um lançamento de Marketing geral para o grande público, quantas pessoas realmente vão acessar, qual o impacto que eu tenho? Tem que ter isso muito claro antes de fazer qualquer ação. 

Vamos esquecer um pouco o mundo virtual de agora. O que eu já vi de gente fazendo coisas no mundo 3D para simular que a navegação era ruim, para dizer que ninguém quer usar aquilo, quando na realidade a pessoa só queria um clique no link. De novo, você gostaria de fazer isso? É uma experiência legal? Temos sempre que melhorar a experiência e isso vai dar o direcionamento para o que você vai usar no metaverso.

[Cecília Cury – Rock] Eu estava pensando exatamente isso, temos que direcionar a experiência do usuário. E com isso você acabou respondendo uma pergunta que o André tinha enviado sobre indicação de ambiente virtual.

Então eu queria fazer uma pergunta de duas pessoas, do Emerson e da Aline, que acaba passando pelo mesmo ponto: quando se trata Marketing Digital e levando em consideração todas essas inovações, existem conhecimentos como os 4 Ps de Kotler e ferramentas que a gente utiliza hoje que vão ficar para trás, vamos descartar, vamos reaproveitar alguma coisa desse conhecimento e dessas ferramentas?

[Martha Gabriel – Especialista] Tem duas coisas aqui. Quando falamos sobre os 4 Ps – que não é do Kotler, ele só organizou, mas tudo bem – é estratégico. E quando falamos de ferramentas, podemos falar do fax, do outdoor, das plataformas de mídias sociais, da televisão, todos em algum grau são ferramentas.

Uma coisa é estratégia e outra são ferramentas e mídia. Em termos de estratégia, os 4 Ps continuam existindo, eles modificam a forma que pensamos neles, pois eles ganham mais dimensões, mas continuam sendo o fundamento para se ter mercado. O mercado é formado de produto, preço, praça e promoção – promoção é comunicação. Você consegue imaginar um mercado que não seja isso?

Hoje temos produtos como eu falei digitais, que foram registrados em NFTs, híbridos, etc, mas PRODUTOS. Sem produtos você não pode fazer a troca. O preço, mesmo que não seja monetário, estabelece a condição da troca. Praça, se você não tem onde trocar – e falamos aqui de vários ambientes – você pode ter o melhor produto do mundo e eu posso adorar o seu produto, mas se não tem onde fazer essa troca, não tem o que ser feito. E comunicação, sem comunicar como eu vou saber que alguém tem o produto que eu quero? E uma das coisas que as plataformas têm feito é facilitar essas integrações de comunicação. 

O que mudou é como fazemos isso. Comunicação, por exemplo, hoje é 24h em diversos formatos, existem diversas plataformas para fazer as transações e trocas e quanto mais digital, mais essas trocas fluem; para preço temos de um milhão de formas, várias moedas, e produtos também, mas tudo continua sendo os 4 Ps.

Quando organizamos isso no plano de Marketing, que é o processo de entender o público, mapear as ameaças, macroambiente, microambiente, entender o ambiente interno da empresa, analisar o que se tem, fazer a estratégia e depois colocar em ação, essa parte de tática não mudou. 

O que muda são os instrumentos que utilizamos para isso. Por exemplo, não usamos mais fax, porque ninguém mais usa fax. Outdoors também não são mais utilizados como antigamente, até porque muitos deles são eletrônicos e surgiu um milhão de possibilidades de mídia além do próprio outdoor. Surgiram diversos canais – e quando falamos de canais o conceito é o mesmo: canais de venda, canais de comunicação, canais de logística – o que mudou é que às vezes o canal pode ser os três em um só. 

Se eu compro um produto digital ele é o canal de venda, de comunicação porque eu vi o produto ali e ao mesmo tempo ele é canal de logística de entrega – é instantâneo. Se eu compro uma geladeira, eu posso ver por um outdoor, um canal físico, fazer a compra num canal digital e ela vem pelas linhas tradicionais porque ela é uma geladeira física. 

Percebam que temos muito mais possibilidades. Alguns instrumentos vão embora porque não são mais utilizados, e outros começam a surgir, mas a estratégica continua sendo o método para você chegar na melhor solução do seu público. 

[Cecília Cury – Rock] Pessoal, estamos chegando ao fim do nosso bate-papo, quero agradecer a presença de todos, e dizer que em maio teremos uma nova Jam Session, podem ficar atentos que em breve vamos divulgar quem é o nosso convidado. Queria muito agradecer a presença da Martha, esse papo foi extremamente enriquecedor, foi uma aula para mim, e queria deixar o espaço para você agradecer e despedir do público. 

[Martha Gabriel – Especialista] Obrigada! Foi um prazer conversar com você, maravilhosa, e #tamojunto. O nome do jogo é “vamos nos transformando conforme o ambiente vai, ficar antenado”. E para deixar uma frase final, temos que ter o pé na pendência e a cabeça na tendência. 

Acha um espacinho no seu dia ou na sua semana para você ver o que está acontecendo, entender isso e com seus pés ir navegando as tendências até chegar onde é o lugar certo. 

[Cecília Cury – Rock] Sensacional Martha, muito obrigada, obrigada pessoal e até a próxima! 

[Martha Gabriel – Especialista] Tchau, obrigada pessoal!

Conteúdo extra

MIT Technology Review Brasil

Martha Gabriel é colunista do MIT Technology Review Brasil, a maior publicação de tecnologia do mundo. Vale a pena acompanhar os artigos de Martha por lá e dos outros colaboradores que também são grandes nomes e especialistas de diversas áreas.

O MIT Technology Review Brasil compartilha artigos, insights, análises, relatórios e outros conteúdos sobre computação, humanos e tecnologia, inteligência artificial, dados, inovação, negócios e muito mais, mostrando diferentes perspectivas sobre a tecnologia e como ela se relaciona e impacta o mundo.

Site da Martha

Martha é uma profissional multidisciplinar na área de Marketing, inovação, tecnologia e negócios. Seu site funciona como um portal de conhecimento, onde o leitor pode explorar diversos conteúdos que ela produziu, suas parceiras e apresentações.

Na página, você encontra informações sobre cursos, suas publicações (Martha é autora de seis livros, incluindo três Best-sellers), podcasts e vídeos e também seu blog, onde é possível conferir artigos sobre vários assuntos interessantes. 

A origem do termo “Metaverso”

Ao longo da entrevista, Martha comentou que o conceito de Metaverso não é nada novo. O termo, na verdade, foi usado pela primeira vez em 1992 no romance de Neal Stephenson chamado “Snow Crash”, que já tem 30 anos de idade.

Nesse livro de ficção científica, os personagens criam e usam avatares digitais para explorar o mundo do Metaverso — que seria uma evolução da internet —, muitas vezes como forma de escape de uma cruel realidade distópica.

Nesse “futuro”, a economia global entrou em colapso e os governos locais não têm mais atuação e poder, tendo perdido sua influência para grandes corporações. O protagonista Hiro é um entregador de pizzas ligado a uma máfia no mundo ‘real,’ mas, no mundo virtual, vive como um príncipe samurai e participa de aventuras e jornadas. Qualquer semelhança é mera coincidência. 

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